segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Feriado de Finados



Tempo de desenterrar alguns fantasmas para que, logo depois, eles se dissipem “na cinza das horas”. É muito impressionante como em determinados momentos da vida, algumas lembranças do passado retornam, se tornam extremamente vivas e, depois de um novo trabalho de elaboração, vão perdendo essa vivacidade e voltam para o limbo da nossa vida, para a opacidade de nossa memória, para a invisibilidade dos nossos olhos.

Ele voltou em tons vermelhos, soltando fogos pelas narinas e esbravejando por um lugar na noite de lua cheia. Ela se embebedou e dialogou com aquele fantasma que a perseguiu por diversas noites. Eles tiveram conversas sobre as coisas antigas, falaram quase tudo o que gostariam de ter dito quando conviviam, fantasiaram uma vida que nunca tiveram, sonharam com as noites possíveis e choraram pela inexorável separação... a ressaca não foi fácil... mas ultrapassadas vertigens, medos e tonturas... a vida, aos poucos, foi ganhando os contornos do cotidiano e o fantasma foi perdendo as bordas, as cores, e se tornou uma imagem translúcida até esmaecer num canto que nunca sabemos onde é... mas que sempre pode retornar.

“As coisas não podem ser destruídas de uma vez para sempre. [...]A idéia de retorno baseia-se no curso da natureza e está de acordo com as exigências do tempo. O movimento é cíclico e o caminho se completa em si mesmo. Por isso, não é necessário precipitá-lo artificialmente. Tudo vem de modo espontâneo e no tempo devido. O estado de repouso dá lugar ao movimento.”
(I Ching, hexagrama 24 - Retorno)

sábado, 17 de outubro de 2009

A ARTE DE AMAR - MANUEL BANDEIRA


ESSA POESIA É PURA PERFEIÇÃO...

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem,
mas as almas não
.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Meninos da rua


"A grande luta desses meninos é contra a invisibilidade. Nós não somos ninguém nem nada se alguém não nos olha, não reconhece nosso valor, não preza nossa existência, não diz a nós que temos algum valor, não devolve a nós a nossa imagem ungida de algum brilho, de alguma vitalidade, de algum reconhecimento. Esses garotos estão famintos de existência social, famintos de reconhecimento".


Trecho extraído do documentário "Ônibus 174" e merece ser lido e relido, escutado, refletido e discutido!

domingo, 20 de setembro de 2009

Lampejo de lucidez


A primeira vez que li esse trecho no livro de Clarice fiquei estonteada com a necessidade humana da estabilidade e da paralisia que ela pode ocasionar. Recentemente, tive um lampejo de lucidez e percebi que a neurose é uma coisa agarrada, guiada pelo medo e pela luta incessante e ilusória de se "agarrar" a uma garantia... Viva a circulação e as brechas das possibilidades que ainda desconheço!


“Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me era necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.”

Clarice Lispector - " A paixão segundo G.H"

sábado, 12 de setembro de 2009

Plágios


Constantemente, recebo emails de autoria duvidosa e ainda perco tempo com as pessoas que me enviam para fazê-las perceber o plágio. Por esse motivo, resolvi dar algumas dicas para aqueles que acreditam em tudo que recebem pela internet.
A primeira dica é óbvia: Não acredite em tudo que receber por email! Duvide de textos que contém uma moral legal no final cuja autoria é sempre atribuída a algum ícone da literatura brasileira como, por exemplo, Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector.
Segundo, pesquise, mas pesquise arduamente até localizar a veracidade da informação, poesia ou texto, pois, obviamente, se o conteúdo foi extraído da internet a falsa autoria vai estar reproduzida em várias páginas virtuais. Procure sites que falem de plágios e de falsidades produzidas pela net, comunidades virtuais que se debruçam em localizar "Afinal, quem é o autor" (comunidade do orkut).
Ah, procure saber um pouco sobre o estilo do autor, pois alguns textos veiculados não têm nada a ver com o que foi produzido pelo mesmo. Por exemplo: recebi um email com uma poesia da Clarice Lispector. Gente, ela nunca escreveu poesia! A parte isso, existe até site com as supostas poesias da autora. Pesquisando, descobri que a tal poesia intitulada de “Mude” foi escrita por “Edson Marques” que utilizou uma frase da Clarice no final do poema. Pronto! Como é comum acontecer, alguém o enviou por e-mail para alguém, que o reenviou para alguém, creditando o texto à Clarice.
Portanto, fiquem de olho e duvidem muito!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Elogio ao encontro



Deixa que minha mão errante adentre atrás, na frente
Em cima, em baixo, entre
Minha América, minha terra à vista
Reino de paz se um homem só a conquista
Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério
Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão, meu selo gravo
Nudez total: todo prazer provém do corpo
(Como a alma sem corpo) sem vestes
Como encadernação vistosa
Feita para iletrados, a mulher se enfeita
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la



Musica: Elegia by Caetano Veloso


Imagem: The embrace by Egon Schiele

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Conclusão do dia


Depois de ser muito questionada sobre o número das pessoas e dos objetos, cheguei a uma conclusão: Sou uma mulher de intensidades, não de quantidades!
Pintura: Marc Chagall, The Birthday, 1915.